Ponto de Cultura Salvamar

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28.6.06

Produtores independentes da região trabalham como "formiguinhas"

26/06/2006 Diário do Grande ABC - Dojival Filho

A produção cultural que não depende de decretos governamentais, grandes investidores ou de partidos políticos tem representantes legítimos no Grande ABC. Por aqui, eles resistem a todo tipo de dificuldade, agrupados em núcleo reservado a quem não se conforma com a mesmice. Estes espaços, em comum,têm a proposta de realizar um verdadeiro trabalho de “formiga”, com persistência e dedicação, além de oferecer aos freqüentadores uma programação com ênfase na cultura popular e sem apelo comercial. As cooperativas se caracterizam ainda pela promoção de festas e eventos temáticos, em que arrecadam parte da receita necessária para a sobrevivência financeira. Apesar de preferirem não ter uma relação de dependência com os governos e com a iniciativa privada, buscam apoios em projetos específicos. Em São Caetano, a Associação Cidadão do Mundo – Arte e Cultura investe em música e cinema. A Casa 7, em Santo André, e A Arca, em Ribeirão Pires, são entidades referenciais na divulgação de produções artísticas alternativas.Associação Cidadão do Mundo quer fortalecer identidade da região Fortalecer a identidade cultural da região é um dos principais compromissos da Associação Cidadão do Mundo – Arte e Cultura (r. Rio Grande do Sul, 73. Tel.: 4225 -1349), em São Caetano. A entidade, que conta com cerca de 20 membros, entre coordenadores e voluntários, utiliza sua sede para promover, entre outros projetos, o Cineclube Jairo Ferreira, que funciona sempre aos domingos, às 16h, com entrada franca. Neste mês, em que todas as atenções estão voltadas para a Copa do Mundo, a programação do cineclube inclui os filmes Boleiros, de Ugo Giorgetti, e Garrincha, Alegria do Povo, de Joaquim Pedro de Andrade. Também serão exibidos os jogos da seleção brasileira na Copa, com entrada a R$ 2. De acordo com um dos coordenadores do espaço, o arquiteto e videomaker Robson Timóteo, a música, sobretudo aquela produzida por instrumentistas locais, é o principal aperitivo do cardápio da casa. “Fizemos mais de 100 shows do começo do ano até agora e 90% deles foram com artistas da região. A associação é, antes de mais nada, um espaço de resistência. Não temos nenhum comprometimento com órgãos públicos ou rabo preso com gravadoras. Para a gente, interessa o fortalecimento da cena regional”, afirmou Timóteo. Na última quarta-feira, o espaço cultural realizou a 1ª Festa Cubana, que contou com a presença de, aproximadamente, 30 pessoas. No palco, a banda Afro-Cuba, que fez a pequena, porém animada platéia, se esbaldar com muitas salsas, merengues e outros ritmos caribenhos, enquanto era exibido na parede da cooperativa o filme Buena Vista Social Club, de Wim Wenders. Às quintas-feiras, a programação é dedicada aos shows de jazz. Efervescência – Criada há cerca de um ano, a cooperativa Casa 7 (pça. Rui Barbosa, 32. Tel.:9554-2129), em Santo André, é um exemplo de grande efervescência cultural. No espaço, são promovidas oficinas de vídeo, percussão, reciclagem e artes plásticas, além de festas e apresentações musicais, que ocorrem nos fins de semana. Por estar situado próximo à Escola Livre de Teatro, costuma abrigar ensaios de peças teatrais. “A Casa 7 veio com a idéia de integrar os novos artistas da região, um pouco segregados por essa cultura de massa. Para reunir o pessoal que saía formado das escolas livres e não tinha onde mostrar seu trabalho. Tem esse nome porque queremos promover uma interação entre as sete artes”, explicou Mário Augusto, um dos responsáveis pela cooperativa, que chega a receber até 150 pessoas em eventos nos fins de semana. Misturalismo – Um dos grupos musicais que se destacam em apresentações na Casa 7 é o grupo Kah-Hum-Kah, formado por Jefferson Sooma (violão e vocais), Denise Coelho (vocal), Rogério Amorim (percussão), Raifa Monteiro (percussão), Rangel Arthur (violão e flauta), Ivan Taraskevicious (baixo). Também faz parte da banda, criada há 10 anos, a artista circense Rosana Ribeiro. Entre as influências marcantes do grupo, os Mutantes, música africana e tudo o mais que a imaginação permitir. Os músicos são defensores do “misturalismo”, corrente segundo a qual toda essência é resultado de outra mistura. Denise, por exemplo, estudou canto lírico e traz para a banda as sonoridades de mantras hindus, entre eles Jyota Si Jyota, que o Kah-Hum-Kah utilizou para abrir o evento Gaiola Atmosférica – Feira de Misturalismos e de Sinestesias, promovido no último dia 4. A iniciativa foi realizada em parceria com A Arca (Associação Ribeirãopirense de Cidadãos Artistas), outra referência na região em espaço alternativo, e o Projeto Oficinativa. Companhia do Nó – Outro espaço referencial da cultura alternativa andreense é a sede da Cia. do Nó (r. Regente Feijó, 359-A) que, na tentativa de formar platéias e divulgar as produções locais, promoveu no ano passado, durante seis meses, o projeto Suburbana – Mostra de Teatro do ABC, que reuniu a produção de diversos grupos teatrais da região. Infelizmente, o “respeitável público”, personagem mais importante de qualquer espetáculo, não apareceu. “Não acho que o projeto fracassou. Hoje é difícil levar o público para qualquer teatro. A gente está rediscutindo como o espaço pode funcionar, como pensar numa comunicação com a cidade”, explica a atriz Renata Moré, uma das responsáveis pela sede do grupo, em que também eram promovidas oficinas teatrais. Entidade teve apoio público e hoje atua com recursos própriosInstrumentos percussivos, oficinas de serigrafia, bonecos de maracatu e mais uma infinidade de objetos destinados à produção artística. Quem chega na sede da Arca (Associação Ribeirãopirense de Cidadãos Artistas) pode passar horas olhando para os adereços presentes no local, que convidam o visitante a se aventurar pelo universo da cultura alternativa. Para os associados, criatividade é quase uma palavra de ordem. A entidade é um exemplo de organização que recebeu incentivo governamental no início, durante a gestão da prefeita Maria Inês (PT/1996-2000), que forneceu orientação para que a Arca fosse legalizada. Assim como hoje, os artistas faziam questão de não manter nenhum comprometimento com órgãos públicos ou partidos políticos. Para desenvolver suas atividades, a associação conta apenas com a contribuição de seus associados (cerca de 30 pessoas) e a renda obtida em projetos de capacitação profissional. “Houve uma troca. Além de acreditar na galera, a Prefeitura firmou um convênio que permitia a contratação do pessoal para atividades”, afirma Leandro Colodro, um dos responsáveis pela associação. “Nós somos uma organização ainda bebê. Estamos aprendendo a engatinhar”, diz a presidente da Arca, Mariana Carolina de Lima. Segundo ela, a entidade faz muitas coisas sem dinheiro, como promover oficinas de circo, aulas de folclore e eventuais workshops. Irreverência – As dificuldades financeiras são enfrentadas com bom humor. Somente com o aluguel, a associação gasta R$ 400 mensais. Mas, nada de lamentar ou fazer discursos vazios. “Já dei uma oficina aqui de percussão a R$ 1,99 para brincar com as lojinhas que existem por aí”, conta o percussionista Rogério Amorim, que também integra o grupo Kah-Hum-Kah, conhecido no circuito underground da região pelo experimentalismo e a irreverência. Ainda segundo ele, a Arca não quer romper o diálogo com o poder público, já que é possível manter os valores da cultura alternativa e empreender parcerias. Porém, faz questão de deixar claro que a entidade busca colaboradores, não patrões. Entre os projetos desenvolvidos pelos artistas estão cursos de técnica de recreação cultural e teatro-empresa. Agenda – Com uma intensa programação cultural, a entidade participa de atividades durante todo o ano. Em janeiro, promovem o Todos por Um, encontro que dá início ao ano artístico do espaço, numa confraternização entre seus associados e simpatizantes. No Carnaval, saem às ruas da cidade com um bloco de foliões e diversos bonecos, máscaras, adereços, e muita percussão. Em março e abril ocorrem o Festival de Rua e o Cidade Ateliê, eventos em que são montados um ateliê e uma galeria de artes a céu aberto. Qualquer interessado pode se aproximar e compor algo. Maio é o mês do Negro Universo, projeto que visa dar visibilidade a toda e qualquer inserção da cultura negra na sociedade brasileira. Aproveitando as festas juninas, a entidade dedica junho aos estudos sobre os conceitos de folclore. Também participam do Festival Cenas Curtas, dedicado às artes cênicas da região. O festival propõe um “retiro artístico” entre os participantes, experientes ou não, por meio de vivências e apresentações breves de seus processos de pesquisa e trabalho. Para o mês de outubro eles preparam o Tangolomango, atividade em que as experiências são sugeridas e elaboradas por pessoas de, no máximo, 13 anos. O objetivo fundamental é dar uma oportunidade para que os artistas-mirins expressem seus talentos. Em novembro ocorre a Mostra de Teatro, que conta com oficinas, debates e palestras. A programação de dezembro inclui o Recrearte, projeto que tem como objetivo “estimular a todos a recriar os sonhos baseados no prazer”, a partir da realização de gincanas, jogos, brincadeiras e uma breve retrospectiva do que foi produzido pelos associados durante o ano. Participação – Apesar de levarem as adversidades na esportiva e esbanjarem disposição para elaborar projetos, os integrantes da Arca encaram o desafio de promover a cultura popular com seriedade. Conciliam a visão idealista da cultura não-massificada, mas sabem que é preciso mais do que vontade para coordenar uma entidade com tantos compromissos. “Não somos como formigas. Acho que a definição melhor seria dizer que somos cupins, porque queremos entrar nas estruturas e, aos poucos, ir corroendo, modificando. A gente acha que isso é possível”, define Amorim.

http://cultura.dgabc.com.br/materia.asp?materia=536197