Ponto de Cultura Salvamar

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3.7.06

Criatividade: matéria-prima e produto

03/07/2006 - Joana Moscatelli (RETS)

Em março do ano passado, foi inaugurada, em São Paulo (SP), aquilo que os organizadores chamaram de primeira “escola de criatividade” em toda a América do Sul. Com uma proposta educacional que estimula a criatividade, a nova escola - que atende pelo nome de Fábrica de Criatividade e foi transformada em uma ONG no dia 20 de junho - oferece aulas de artes plásticas, música, teatro e idiomas, assim como shows e recitais de poesias. Além da nova metodologia educacional, a Fábrica de Criatividade pretende ser também o primeiro pólo cultural do bairro de Capão Redondo, conhecido como um dos mais violentos da cidade de São Paulo (SP). No ano de 2000, o músico Denílson Shikako teve o pai assassinado durante uma tentativa de assalto em Capão Redondo e a primeira reação que teve foi pensar em sair do país. “Após o assassinato de meu pai, eu e minha família pensamos em ir para os Estados Unidos, mas amigos e colegas de trabalho me convenceram a permanecer no país, alegando que algo precisava ser feito para que mortes como a de meu pai não acontecessem mais. Assim, fiquei no Brasil mas com uma condição: realizar um trabalho sério que tentasse mudar essa realidade”, conta o músico. Essa foi a história que deu origem a um dos projetos mais ousados em São Paulo que pretende, com força de vontade e pincéis, pintar uma nova realidade para o bairro de Capão Redondo. “A idéia é transformar o bairro através da cultura, criando novos caminhos e perspectivas para crianças e adolescentes da região”, explicou Shikako. Assim, com apoio de empresas e de amigos, foi construída a escola da Fábrica de Criatividade que, além das atividades culturais e educacionais, oferece uma aula de criatividade, matéria diferente que procura estimular o potencial do cérebro dos jovens para desenvolver idéias inovadoras. De acordo com Shikako, a Fábrica de Criatividade possui três elementos fundamentais: a arquitetura especial desenhada especificamente para abrigar a escola, uma metodologia que estimula a criação de novas idéias e aulas interdisciplinares, bem como profissionais qualificados. A Fábrica pretende ser não só um espaço de aprendizagem, mas um espaço de cultura e lazer para os moradores de Capão Redondo. Para Shikako, unir educação a arte e cultura é fundamental para transformar o ato de aprendizagem em um prazer: “O bairro de Capão Redondo não possui nenhum espaço de cultura além da Fábrica. Agora, os moradores da região podem ocupar seu tempo com atividades culturais a que não tinham acesso antes. Essa é uma forma também de afastar jovens e crianças de problemas como a violência e aproximá-los da arte e da cultura”. Eliana de Castro, diretora de comunicação da ONG, conta que a própria estrutura da escola pretende estimular a criatividade dos alunos: “A idéia é ser um espaço de aprendizado que ultrapasse o limite tradicional entre professor e aluno. É muito comum ver os alunos presentes na escola, participando da promoção dos eventos e realizando atividades extra-escolares”. Com capacidade para atender mais de três mil alunos, a Fábrica de Criatividade tem hoje cerca de 300 alunos. Os cursos oferecidos custam em média R$ 70, mas como nem todo mundo pode pagar, a idéia é oferecer bolsas para mil jovens da região. “Ao transformar nosso projeto em uma organização não-governamental (ONG) pretendemos atrair empresas e instituições parceiras, podendo assim ampliar o número de bolsas para os jovens da região. Atualmente, cerca de 30% dos nossos alunos são bolsistas", explica Shikako. Segundo ele, foram investidos cerca de R$ 1,5 milhão na construção da Fábrica e experiências semelhantes foram observadas em escolas na Itália e nos Estados Unidos: “Realizamos diversas pesquisas no mundo inteiro e - inspirados em iniciativas como a Fábrica, da Benneton, na Itália, e a empresa Ideo, nos Estados Unidos - elaboramos o projeto da Fábrica de Criatividade”. Rodrigo de Oliveira Andrade, 18 anos, participa como bolsista do curso de desenho artístico da Fábrica há cerca de um ano. Para ele, as aulas da Fábrica se diferenciam dos cursos tradicionais por estimularem a criatividade e não a cópia de modelos consagrados. “Aqui, os professores estimulam mais a criatividade no desenho e não só ficar copiando o que já foi feito”. Atualmente, a Fábrica tem parcerias com organizações como o Grupo Cultural Afro Reggae e a ONG Jardim Amália Melhor, além de escolas públicas do município e do estado de São Paulo.

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